Sem Censura





28/08/2006 18:03

Empertigado no terno de linho importado,
o cavalheiro de óculos escuros e anel reluzente explicava
a maravilha que era Las Vegas. “Não há pobreza, doutor.
O jogo é gerador de empregos e o maior distribuidor de rendas.”
Essa ladainha me acompanhou por quase toda vida profissional.
Em algumas cidades, piedosamente travestida de “atividade social da Igreja” ou dum “Santo Padroeiro.” Em outras, tanto podia ser para ajudar creches e asilos, como para soerguer falido time de futebol. O repertório de justificativas era vasto e folclórico.
Dois casos, em especial, ficaram na memória. O primeiro, foi a honrosa visita de um Prefeito acompanhado do Presidente da Câmara, vereadores, algumas viúvas e meia dúzia de prostitutas.
Todos me provaram que eu era “um estorvo ao progresso da cidade”
e foram didáticos: “O pessoal daqui anda 2,5 quilômetros e joga noutro Estado.” O segundo, era um cidadão dizendo-se uruguaio. Entulhou minha mesa com estatísticas, demonstrando que onde
o jogo é livre o PIB é alto e a assistência social muito melhor.
E arrematou “por que o Estado pode praticar todo tipo de jogo de azar e ao particular é proibido?” Por cima, me provou que,
com um caminhão-baú de mudanças equipado, em quarenta minutos montava e desmontava, em qualquer chácara da periferia, um completo cassino, não faltando teclado e saxofone, nem “garotas vestidas de coelhinhas.”
O certo é que, hipocrisia à parte, o jogo existe. Está aí.
Só não enxerga a Autoridade que não o quiser ver.
E tem jogo para todo tamanho, idade, gosto e bolso.
Seja beato como os bingos que levam o dinheiro da terceira idade, ou os que fazem a alegria dos carnavais milionários.
Não podendo esquecer os dissimulados, aqueles com maquiagem
na televisão. Muito menos os escolares, que alegram desde a criançada aos universitários. Aliás, certos setores de algumas escolas públicas são auxiliados por bingos, quando o Estado não se faz presente.
Tampouco, não se pode desfocar que, em cada esquina, o Estado está presente com farta bateria de jogos (loterias, Sena, Mega, Loto, Quina....), estimulando, e até ensinado, a jogar através de corriqueira propaganda pela mídia.
Para não perder tempo falando no “Jogo do Bicho”, direto à questão:
- Conquanto todas e quaisquer formas de jogos arrecadassem tributos, destinados à educação e saúde,
o jogo poderia ser livre?

- Arnaldo Romano -





enviada por Vivian






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